Não ao Futebol Moderno

Não ao Futebol Moderno. Esse é o lema da Setor 2, torcida organizada criada em 2001, na Zona Leste de São Paulo.

O time é o Juventus, da Mooca, que manda seus jogos na charmosa Rua Javari.

O estádio é um mundo à parte dentro do “futebol moderno”, rodeado por cifras milionárias, jogadores popstars e salários surreais.

No entanto, a Rua Javari pode estar com seus dias contados. O bairro da Mooca localiza-se na Zona Leste de São Paulo. Tem 75 mil habitantes (número maior que muitas cidades do interior do país). A região se desenvolveu no século passado com as indústrias e os operários imigrantes – em especial, os italianos.

Outros bairros paulistas têm na imigração sua marca: Bexiga, Brás, Barra Funda entre outros. Na Mooca, futebol, tradição e história estão mescladas.

Não ao Futebol Moderno
Não ao Futebol Moderno: Setor 2, uma das mais importantes torcidas organizadas do Juventus. Ao lado, bandeira em italiano: “Origens Operárias”. Foto: Ale Vianna

Através do Clube Atlético Juventus, fundado em 1924 por dois irmãos vindos do norte da Itália, a história se eterniza a cada tarde – o estádio não tem refletores, o que impossibilita jogos à noite – em que se disputa um jogo na romântica Rua Javari.

O estádio é famoso também por ser o local em que Pelé anotou o gol mais bonito de sua carreira – há um busto em homenagem ao jogador no estádio. O Juventus tem o apelido de Moleque Travesso, porque costumava “aprontar” contra os grandes clubes paulistas.

Já o nome é uma homenagem ao time de Turim; as cores eram inicialmente lilás, numa alusão à Fiorentina, de Florença. Depois, passou para o atual grená. A equipe da Mooca tem como maior feito a conquista da Taça de Prata em 1983 – algo equivalente à Série B atualmente.

O clube tem aproximadamente 48 mil sócios, segundo dados do site oficial da equipe. No passado, no entanto, ostentou o maior número de sócios da capital paulista: 100 mil.

Com o tempo, a estrutura deteriorou, os investimentos minguaram e os sócios foram desertando. Ainda assim, é possível praticar natação, boxe, futsal, futebol, basquete, yoga, taekwondo, ballet, vôlei, handebol, aulas de idiomas, entre eles o italiano, e inúmeras outras atividades nas dependências do Juventus.

Não ao Futebol Moderno
“Ódio eterno ao futebol moderno” é um dos lemas da equipe juventina. O movimento é difundido também na Itália e Inglaterra. Foto: Divulgação

Não ao Futebol Moderno

O Juventus é uma entidade do futebol paulista e do bairro da Mooca; está enraizado de tal forma na região que as palavras Juventus e Mooca unem-se com facilidade nos noticiários. É visto por muitos como um foco de resistência ao chamado “futebol moderno”.

“Ódio eterno ao futebol moderno” é um movimento existente na Itália e Inglaterra contra investimentos exorbitantes e midiatização dos jogadores. O Moleque Travesso é visto no Brasil como um reduto de romantismo em um esporte “que vendeu sua alma” para o futebol moderno.

Alguns dos defensores dessa ideia argumentam que o futebol moderno se faz para a mídia, que alguns jogadores pensam em lances, comemorações etc só por conta do apelo midiático e não pelo esporte em si. E o Juventus e a Rua Javari são, no Brasil, um dos símbolos desse movimento.

A folha salarial da equipe é de aproximadamente 200 mil reais – valor recebido por um ou dois jogadores dos grandes times brasileiros. Na Rua Javari, a média de público varia de 1.500 a 3.000 pessoas, um número bom quando se trata de Série A-2 e A-3 do campeonato paulista.

O estádio é ponto turístico: estrangeiros e visitantes da capital paulista tiram fotos. Vários de seus frequentadores nos dias de jogos não são “juventinos de origem”, mas foram atraídos para a Mooca pelo boom imobiliário e pela verticalização que a região vem passando nos últimos anos.

Com o estádio próximo de casa, passaram a seguir e torcer pela equipe. Daí o fato de o time ser chamado por alguns de “segundo clube de todo paulistano”. De crianças a idosos, de jovens a moças, senhores a senhoras, a Rua Javari é um cenário pitorescol para o futebol moderno.

As controvérsias

Nos últimos dias, a diretoria do Juventus lançou um projeto ambicioso de modernização da Rua Javari: uma arena com 20.000 lugares no padrão da FIFA. O espaço de 15 mil m² está avaliado em aproximadamente 100 milhões de reais e, segundo dirigentes do Juventus, é um terreno bastante cobiçado.

Assim, através de uma parceria e de investidores, haveria a construção do novo estádio e por conseguinte, seria iniciado um projeto de revitalização do clube através dos novos investimentos. Também há um projeto de lançar um hotel na região.

No entanto, não se falou na construção de um museu do Juventus no espaço da nova arena, algo que certamente seria interessante para a equipe. A história da região e do time são riquíssimas.

Merecem ser eternizadas em um espaço dedicado especialmente a eles. Estudar imigração e não estudar a Mooca ou o Juventus é como tentar entender a história dos portugueses em São Paulo sem passar pela Portuguesa.

Vender os naming rights da arena, algo tão difundido na Europa e também é uma ideia. Não é preciso muito esforço para lembrar: Allianz Arena, Emirates Stadium, Etihad Stadium entre outros.

A “marca” Juventus tem força: recentemente, a Umbro, uma das principais empresas mundiais do ramo, resolveu patrocinar a equipe e lançar um novo uniforme festivo em alusão ao time que foi campeão nos anos 1980.

A Umbro patrocina equipes como o Manchester City, Glasgow Rangers, Sevilla, Athletic Bilbao, Nancy, Lille, Atlético-PR entre outros. Nas redes sociais, o Juventus bate equipes como Bragantino, Avaí, Joinville entre outros, somando mais de 5.500 seguidores na página oficial do clube.

Essa ideia esbarra em pontos cruciais. A torcida gosta do time como ele é. Modesto, tradicional e romântico. Não-midiatizado. E nem querem que o seja. Demolir a Rua Javari seria demolir o símbolo de todo o movimento pelo qual a Setor 2 luta. Seria cortar a raiz de tudo.

Tornar o clube algo que ele nunca foi: uma equipe normal, como qualquer outra. Além disso, o entorno da Rua Javari é composto por ruas estreitas e moradias. A questão enfrenta resistência tanto dentro da equipe como em questões físicas.

Para construir uma arena e criar um ponto turístico na Mooca seria imprescindível remodelar a região, o que envolveria a prefeitura paulista, muita burocracia, discussões com os moradores e investimentos portentosos.

E você? É a favor do Futebol Moderno ou contra a reformulação da Rua Javari?

Isso acabaria com a poesia no futebol? Seria o fim do romantismo e ascensão do futebol moderno?